Hoje, na pequena biblioteca, fala-se não de uma obra mas de um conjunto de obras que têm em comum o propósito que presidiu à sua edição, o suporte em que foram elaboradas e a casa editora.

Nas décadas de 50, 60 e 70, a casa editora Lello & Irmão lançou um conjunto de volumes em papel de bíblia contendo as obras completas de diversos autores portugueses. Estas obras, com capas duras e lombadas gravadas a ouro, têm um tamanho (19 x 13 cm) e peso por volume que facilmente permitem o seu transporte. Outra das boas características destas edições é o facto de se tratar de papel de bíblia de boa qualidade. O que isto significa é que apesar da sua finura, o texto do verso da página não atrapalha a leitura da mesma. Para além disso, o tamanho e tipo de letra, apesar de não serem gigantes, são adequados. Dos volumes que a pequena biblioteca tem são poucos os casos de má impressão de uma página com esbatimento das letras.

É certo que não se tratam de edições em que estejam presentes ilustrações ou composições de página mais elaboradas mas a verdade é que servem como uma completa referência para as obras dos diferentes autores e são extremamente compactas no espaço que ocupam. Claro que, considerando Ferreira de Castro, por exemplo, as edições da sua obra pela ENP são indispensáveis.

A pequena biblioteca possui, nestas edições, os seguintes volumes:

  • Obras de Ferreira de Castro (4 volumes)
  • Obras de Guerra Junqueiro
  • Obras de Bocage
  • Obras de Eça de Queiróz (4 volumes)
  • Obras de Arnaldo Gama (2 volumes)
  • Sermões de Pe. António Vieira (4 volumes)
  • Obras de Luís de Camões
  • Obras de Gil Vicente

O preço, listado no site da Lello Editores, ronda cerca de 60€ (por volume) e para além dos volumes que repousam na pequena biblioteca existem muitos outros com destaque, por exemplo, para a obra completa de Camilo Castelo Branco (de que a pequena biblioteca tem apenas 2 dos 18 volumes).

São apresentadas, de seguida, algumas fotos dos diferentes volumes para que tenham uma ideia do seu formato e aspecto.

Decameron é, provavelmente, a obra mais conhecida de Giovanni Boccaccio. Ao longo de 10 dias, 10 jovens contam cada um 10 pequenas histórias. Uma das principais razões para popularizar esta obra terá sido o conteúdo erótico de algumas das histórias que é, aliás, belamente evidenciado pelas ilustrações da edição que existe na Pequena Biblioteca.

Numa edição do final da década de 70, estes 5 volumes in-folio possuem diversas ilustrações a cores, hors-texte, e foram editados pela Formar. Se por acaso alguém tiver informações adicionais sobre esta editora agradeço.

Abaixo seguem algumas imagens da obra. Na minha opinião as ilustrações são de uma beleza impressionante. Reparem como conseguem uma carga erótica sem serem vulgares.

Ao adquirir a obra Le Petit Monde de Don Camillo, editada pelas edições André Sauret, e ilustrada por Gus Bofa, dei por mim a pesquisar um pouco mais sobre este ilustrador. Descobri depois que Gus Bofa ilustrou diversas obras para a editora francesa Gallimard/Nrf na década de 50 do século passado.

Por essa altura, a editora Gallimard trouxe a público dezenas de obras num formato absolutamente extraordinário: volumes in-4, com encadernações com decorações por artistas como Paul Bonet, Hollenstein ou Prassinos e com uma média de 32 ilustrações hors-texte, a cores, por volume.

É nesse magnífico grupo de obras que se inserem os dois volumes das obras de Émile Zola que estão na pequena biblioteca.

As ilustrações pertencem a diversos artistas. Para o primeiro volume, Chefs d’Oeuvre, editado em 1957, colaboraram Gus Bofa, P.E. Clairin, Dignimont e Grau Sala. Este volume contém, em língua francesa, as obras Thérèse Raquin, La faute de l’abbé Mouret, L’Assomoir e Nana.

O segundo volume, Autres Chefs d’Oeuvre, editado em 1958 e ilustrado por Tibor Csernus, Fontanarosa e Jean Terles, contém, em língua francesa, as obras Pot-Bouille, Germinal e La Bête Humaine.

Ambos os volumes são edições limitadas e numeradas. Infelizmente, os volumes da pequena biblioteca não possuem o estojo em cartão com que originalmente eram vendidas.

Ao tomar conhecimento desta colecção/editora pude aperceber-me de quão rico era o panorama editorial francês da altura. Não só a Gallimard, da qual existem outros volumes na pequena biblioteca,  mas também editoras como a Librairie Gründ, editaram obras com um cuidado e qualidade muito grandes. Por vezes, ao pesquisar por determinadas obras, acabo por ser atraído por edições que depois verifico serem francesas. Foram, decerto, anos de ouro.

Deixo-vos com algumas imagens destes dois volumes para que possam ter uma ideia da sua beleza.

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Émile Zola
- Chefs d’Oeuvre,Volume in-4, 892 pág., 32 ilustrações hors texte (Gus Bofa, Clairin, Dignimont), encadernação segundo desenho de Paul Bonet, Éditions Gallimard (Nrf), 1957
- Autres Chefs d’Oeuvre, Volume in-4, 788 pág., 32 ilustrações hors texte (Csernus, Fontanarosa, Terles), encadernação segundo desenho de Paul Bonet, Éditions Callimard (Nrf), 1958

O Vento nos Salgueiros é uma obra escrita por Kenneth Grahame há mais de 100 anos. Nela se podem ler as aventuras da Toupeira, do Rato, do Sapo e do Texugo. Pelos nomes das personagens já deve dar para perceber que estamos na presença de uma obra escrita para crianças. Mas o facto de ela ser considerada literatura infantil não nos deve afastar de a ler e apreciar. Aliás, para quem seja fã dos Pink Floyd, o album The Piper at the Gates of Dawn (Syd Barrett aos comandos) retira o seu título de um dos capítulos d’O Vento nos Salgueiros.

A. A. Milne, que adaptou o livro a uma peça de teatro, escreveu um dia o seguinte:

“Não se discute sobre O Vento nos Salgueiros. Um rapaz oferece-o à rapariga por quem está apaixonado e, se ela não gostar, pede-lhe as cartas que lhe escreveu. O velho experimenta-o no seu sobrinho e altera o testamento conforme a reacção. O livro é um teste de carácter. Não o podemos criticar pois ele está a criticar-nos a nós. Mas devo, no entanto, avisar-vos. Quando se propuserem a lê-lo não caiam no ridículo de supôr que estão a julgar os meus gostos ou a capacidade artística de Kenneth Grahame. Sois vós quem está a ser julgado.”

Sobre a obra em si já muito se escreveu  e estou longe de ser a pessoa que pode trazer algo de novo. O que é interessante n’O Vento nos Salgueiros é a profusão de ilustradores que, ao longo dos anos, procuraram representar as suas personagens e o mundo em que as aventuras aconteceram.

De entre o imenso número de ilustradores ( ver aqui para uma lista completa ) a Pequena Biblioteca possui alguns exemplares ilustrados d’O Vento nos Salgueiros. Se é verdade que algumas ilustrações, fruto das edições em que estavam inseridas, têm um cariz marcadamente infantil, existem outras absolutamente fabulosas.

De seguida apresentam-se algumas imagens de ilustrações pertencentes às edições que repousam na Pequena Biblioteca tendo, cada uma delas, o nome do respectivo ilustrador na legenda. Algum preferido?


O Vento nos Salgueiros
Kenneth Grahame
Várias editoras

Em 1973, Natália Correia deixa a Estúdios Cor e é nesse mesmo ano que se publica, com a chancela desta casa editora, Mulher: Antologia Poética por ela coordenada e prefaciada.

Numa edição cuidada, como são todas as trazidas à luz pela Estúdios Cor (onde José Saramago foi editor até 1971), esta antologia contém diversos poemas alusivos à mulher e provenientes dos mais variados autores e períodos literários: D. Dinis, Camões, Bocage, Cesário Verde, António Nobre, Florbela Espanca, António Ramos Rosa e Herberto Helder, entre outros.

Os diferentes poemas são acompanhados por 22 ilustrações a cores, hors-texte, de Martins Correia.

Na introdução, escrita por Natália Correia, pode ler-se o seguinte trecho que expressa uma das linhas orientadoras que presidiu a esta antologia:

“O homem sonha. Do fundo de uma perspectiva rasgada numa matéria opalescente uma mulher caminha para ele. É  a sua alma. Psique! A mulher traz um espelho na mão. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está banhado de uma luz semeada de pequenas asas vibráteis de platina. É a revelação inaudita do anjo que ele era e não sabia. O homem vê-se no espelho. O seu rosto está coberto de minúsculos animais viscosos que incessantemente saem do antro tenebroso do seu coração. É a revelação monstruosa do demónio que ele era e não sabia.

Éis a glória e a ignominia da mulher… Glória, porque é da sua natureza anímica, apaixonante, pôr o homem em tensão para o sublime ou para o ignóbil que nele se libertam pela via da paixão. Ignomínia, porque esta propriedade entusiasmante de mulher implica ser ela indispensàvelmente objecto da subjectividade do homem.”

A edição foi limitada a 2000 exemplares. A Pequena Biblioteca possui deste livro o exemplar com o número 1529. As imagens que se seguem são apenas alguns exemplos de interessantes detalhes da obra. Repare-se no cuidado gráfico que preside a todo o conjunto.

Se o deus, que assanha as Fúrias, te avistara
As mãos de neve, o colo transparente,
Suspirando por ti, do caos ardente,
Surgira à luz do dia, e te roubara;

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A Mulher: Antologia Poética
Coordenação e prefácio de Natália Correia
Estúdios Cor
22 ilustrações de Martins Correia
1973
Volume in-4

O escritor Giovanni Guareschi tem, desde há muito, um lugar de destaque na minha lista de autores favoritos.

Editada em 1956, a edição de Don Camilo e o Seu Pequeno Mundo, por André Sauret, Editions Vie, Lausanne (em francês) é de uma beleza digna de albergar uma obra tão sublime. As capas, deste volume in-4 são todas decoradas com dourados e no interior podemos encontrar 32 ilustrações do famoso ilustrador Gus Bofa.

Esta edição teve uma tiragem limitada de 11000 exemplares. Destes, 10000 possuem as capas negras e decoradas a dourado. Os restantes 1000 exemplares, destinados aos “amigos da edição”, possuem capas verdes sem decoração (que se mantém na lombada) e apresentam, no final do livro, uma repetição de todas as ilustrações em preto e branco. A Pequena Biblioteca detém um exemplar de cada uma destas “versões”.

De seguida apresento algumas imagens para que possam ter uma ideia da beleza da edição.

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Le Petit Monde de Don Camillo
Éditions Vie,  André Sauret
Capas por Gus Bofa
32 ilustrações a cores de Gus Bofa
1956
Volume in-4

Talvez fosse de esperar que o primeiro post a sério deste espaço trouxesse uma obra de extraordinário esplendor, uma primeira edição ou uma edição ilustrada de uma obra famosa, editada por uma editora de renome. Nem sempre o que se espera é o que realmente acontece.

Uma biblioteca faz-se desse tipo de obras mas cresce, sobretudo, a partir das obras que marcam o seu dono. Longe vão os anos em que li a primeira obra de Júlio Verne e longe também vão os anos em que mais assiduamente o procurava mas não resta em mim a menor dúvida de que foi um autor que marcou bastante o meu percurso de leitor.

As edições da obra de Júlio Verne têm sido inúmeras e têm aparecido, inclusive, algumas em capas duras com réplicas das edições originais. No entanto, é preciso ter em conta que nem sempre as traduções são as melhores.

Várias das primeiras obras de Júlio Verne que li foram edições das Publicações Europa-América, com as ilustrações da edição original mas apenas parte das obras do autor foram publicadas por esta editora. A casa editora que mais completamente publicou a sua obra em Portugal foi a Livraria Bertrand.

Das várias edições trazidas a público pela Bertrand a pequena biblioteca tem a quase totalidade da edição da década de 70/80 com capas de papel,  desenhadas por José Cãndido, e contendo as ilustrações da edição original.

Esta colecção há muito tempo que saiu de edição e alguns dos diferentes volumes que possuo contam com perto de 40 anos.

A verdade é que não trocaria este conjunto por nenhum dos conjuntos recentes em capas duras que por aí andam. O único conjunto que me seduz mas que é mais difícil de arranjar (e mais caro) é também da Livraria Bertrand e possui capas duras em verde e branco com protecção de papel em tons de verde.

As imagens abaixo mostram quase todas as capas dos diferentes volumes que possuo. Se as minhas contas estiverem certas a colecção é constítuida por  85 volumes.


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Colecção Júlio Verne
Livraria Bertrand
Capas de José Cândido
Ilustrações da edição original
Anos 70/80
Aprox. 230 páginas/volume
85 volumes

Pequeno Começo

Posted: Janeiro 2, 2011 in Uncategorized

Uma pequena biblioteca…